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USO DA TÉCNICA DOS TRÊS L’S PARA TRATAMENTO DE FERIDAS CUTÂNEAS EM EQUINOS

Sem dúvida alguma uma das maiores casuísticas dentro da medicina veterinária equina são lesões que comprometem a integridade da pele. A principal justificativa é que cavalos são animais de fuga tornando momentos de explosão, de velocidade, "sustos" e coices comuns em sua rotina, o que aumenta consideravelmente a ocorrência de lesões.
A pele apresenta importantes funções biológicas relacionadas a homeostase orgânica e pesquisas recentes destacam sua ação na imunorregulação, mediada pelo tecido linfoide associado à suas estruturas. Células imunocompetentes, como linfócitos, queratinócitos e células de Langerhans, encontradas na derme e epiderme, atuam em conjunto com fatores modificadores da resposta biológica para favorecer este papel imunorregulador do órgão.
Dessa forma, uma vez lesionada, a pele não exerce seu potencial por completo e o organismo torna-se vulnerável a fatores exógenos podendo comprometer inclusive a saúde do animal.
Todo ferimento necessita de rápida e eficiente abordagem para minimizar consequências indesejáveis, como por exemplo, a formação de tecido de granulação exuberante, sendo assim necessária uma correta avaliação para desenvolver o protocolo mais adequado para cada animal.
O primeiro passo é classificar a ferida para melhor entender o caso, diferenciando-a conforme planos acometidos, tipo de lesão, presença de contaminação e etiologia da ferida. Diante destas informações, o médico veterinário terá maior propriedade para decidir entre as duas formas de abordar a lesão: promover a cicatrização por primeira intenção, segunda intenção
ou terceira intenção.
Na cicatrização por primeira intenção é realizada sutura da pele a fim de unir os bordos da lesão. Contudo, ferimentos localizados em regiões distais dos membros apresentam prognóstico reservado para o êxito desta opção, visto que há maior ocorrência de deiscência dos pontos pela grande mobilidade exercida.
A cicatrização por segunda intenção, por outro lado, é recomendada para quando não é possível tratamento por primeira intenção, feridas contaminadas e nos casos de feridas cirúrgicas onde ocorreu necrose ou deiscência dos pontos. Não é realizada sutura na pele e os bordos se unem conforme o processo cicatricial evolui (processo de retração da ferida).
Em casos específicos, pode-se optar pela cicatrização por terceira intenção onde se inicia o processo de cicatrização por segunda intenção mas posteriormente é realizado debridamento e sutura da pele para que a cicatrização ocorra por primeira intenção.
Devido à alta demanda do mercado por técnicas para o reparo de feridas, somado ao meu interesse pessoal em colaborar de forma efetiva para redução do período de tratamento, visando o bem-estar do dos meus pacientes, que desenvolvi a Técnica dos Três L's para tratamento de feridas de difícil resolução.
Testada a campo em mais de 450 equinos, inclusive em centenas de animais que se encontravam nas mesmas condições climáticas, mesmo manejo e datadas do mesmo dia, foi possível comprovar a eficácia clínica da técnica, criada através de evidências científicas criteriosamente apuradas.
Descrição da Técnica dos Três L's: Low friction, Laser therapy and Leptospermum scoparium.
É utilizado a sigla "Três L's" para descrever os procedimentos realizados: Low friction (limpeza a baixa fricção), Laser therapy (aplicação de laserterapia) e Leptospermum scoparium (princípio ativo da pomada aplicada).
1. LOW FRICTION:
A limpeza é fundamental para o processo cicatricial e dentre os seus benefícios está a remoção de partículas, bactérias e tecido desvitalizado, reduzindo assim o potencial de infecção.
Esse processo precisa ser realizado com soluções adequadas e com baixa fricção de modo a não danificar o tecido a ser formado. Diversos estudos demonstram que a utilização de soluções antissépticas, como iodopovidona, água oxigenada e ácido acético pode comprometer o processo de cicatrização ou mesmo aumentar o risco de infecção.
De modo geral, é indicado o uso de soluções que apresentem as seguintes características: estéril, não irritante, normotérmica e isotônica. Além disso, é importante também estar facilmente disponível e apresentar um bom custo-benefício, sendo a solução salina a 0.9% - solução fisiológica - uma das soluções mais indicadas.
A limpeza de baixa fricção consiste na remoção do exsudato superficial e debris celulares, sem danificar o tecido saudável com células viáveis, utilizando solução isotônica não citotóxica e leve fricção sem debridamento. Ao remover células saudáveis junto com debris celulares, ocorre retardamento do processo de cicatrização, sendo por isso tão importante que a fricção seja reduzida para remover somente o necessário, não interferindo assim na evolução do processo de cicatrização, preservando os vasos sanguíneos neoformados e permitindo melhor potencial de recuperação tecidual.
2. LASERTERAPIA:
Com a laserterapia espera-se efeitos de fotobioestimulação com relação direta na síntese de ATP celular, diminuição do processo inflamatório e estimulação da fase proliferativa da cicatrização, aumentando a proliferação dos fibroblastos, estimulando a angiogênese e a síntese de colágeno. Sua ação pode ser observada pela redução da área da ferida.
Na Técnica dos Três L's, o Laser é aplicado em toda a região da ferida, incluindo bordos e centro.
3. LEPTOSPERMUM SCOPARIUM:
A Leptospermum scoparium popularmente conhecida como manuka, é uma planta de origem da Nova Zelândia.
O mel originário dessa planta apresenta características específicas por obter a substância metilglioxal (MGO). A pomada que fazemos uso na técnica é produzida a base do mel de manuka, sendo, até o momento, o único tipo de mel que possui concentração adequada de metilglioxal, e por isso suas propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas são potentes, promovendo ambiente adequado para a cicatrização de feridas.
Estudos comprovaram que concentrações que variam entre 189 a 835 mg MGO/kg são encontradas neste produto e este fator faz realmente muita diferença para que possamos criar protocolos com redução de troca de curativos, minimizando assim, drasticamente, o estresse dos cavalos durante o tratamento de feridas, redução na formação de cicatrizes que podem depreciar o valor comercial do equino como também o custo para o proprietário.
E pensando justamente em unir a necessidade de encontrar técnicas que possam potencializar o processo de cicatrização tanto com relação ao tempo, bem-estar do paciente, redução de cirstor quanto a qualidade do tecido formado é que a Técnica dos Três L's foi desenvolvida.
Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer
M.V. (CRMV/RS 6792)
Equine Therapist
FEI Permitted Treating Veterinarian-BRA
WALT Member (World Association for LASER Therapy)
AAEP Member (American Association of Equine Practitioners)
COLABORADORES:
Fernanda Silveira Nóbrega (CRMV/RS 9031)
Médica Veterinária Doutora
Laura Leandra Halinski (CRMV/RS 13337)
Médica Veterinária - Therapy4Horses/BRA
Julia Duarte Savietto Frati (CRMV/SP 28.027) - Médica Veterinária
Laura Lorrane Ribeiro Vieira - Médica Veterinária
Sophia Panelli Marchió - Estudante de Medicina Veterinária
Membros do The Therapy4Horses Club - Research Group, as estudantes de Medicina Veterinária: Amanda Fialho; Fernanda Lara; Fernanda Monteiro; Julia Corsetti; Tatiane Castro
Artigo publicado na Revista +Equina
Ano 15 - Nº97
Setembro/Outubro 2021