top of page

Artigo

TERMOTERAPIA EM EQUINOS

Revista Equina 96.png

A termoterapia é uma técnica que consiste na aplicação de modalidades térmicas com o objetivo de se obter uma reação fisiológica controlada para o tratamento e prevenção de lesões em cavalos atletas.

​

A ação desta modalidade ocorre através da sensibilização dos termorreceptores, receptores sensoriais presentes na pele, sensíveis às variações de temperatura. O sistema nervoso central utiliza suas informações para organizar as reações orgânicas e comportamentais de acordo com as necessidades do organismo de conservar ou dissipar calor.

​

HIPERTERMOTERAPIA - TÉCNICA DE APLICAÇÃO DE CALOR

​

A aplicação tópica de calor é utilizada primariamente para aumentar a flexibilidade do tecido enquanto reduz a dor e a hipertonicidade muscular.

​

A técnica de hipertermoterapia é uma modalidade considerada quando se está abordando quadros crônicos uma vez que nos quadros agudos em presença de inflamação e efeito de vasodilatação causado pela técnica pode predispor o edema.

​

Alguns objetivos da técnica são reduzir dor, espasmo, rigidez muscular e edema. O efeito analgésico é explicado pela influência direta na condução nervosa. Apesar do calor superficial

somente atingir a região mais superficial (aproximadamente 1cm a partir da superfície da pele), há possibilidade de atingir nervos superficiais atuando com efeito sedativo e no

alívio da dor a partir da teoria das comportas (gate control theory).

​

A redução do espasmo muscular é explicado pela influência do calor na atividade do fuso da fibra muscular, quebrando o ciclo dor - espasmo muscular - dor. O calor também reduz a viscosidade dos tecidos moles e aumenta a elasticidade do tecido cicatricial.

​

A redução do edema é justificada pelo efeito de vasodilatação, através de reflexos espinhais que levam a redução do tônus da musculatura lisa dos vasos. Algumas reações enzimáticas

são potencializadas com temperaturas próximas a 45°C que podem gerar aumento do fluxo sanguíneo com redução do edema.

​

O mecanismo de ação desta modalidade está no aumento de temperatura local que produz agitação de moléculas e, consequentemente, o metabolismo local. Este processo pode se tornar sistêmico, dependendo da duração e intensidade da fonte de calor.

​

As principais indicações da hipertermoterapia são:

​

  • Quadros inflamatórios crônicos com o objetivo de aumentar o aporte de oxigênio tecidual;

​

  • Casos onde haja limitação de mobilidade, lesões articulares;

​

  • Contraturas musculares;

​

  • Potencializar absorção do edema.

​

Devido a sua capacidade de aumentar a amplitude do movimento articular, esta técnica também pode ser empregada antes da realização de exercícios funcionais.

​

Sempre é válido lembrar que a temperatura empregada não deve exceder 45°C, pois temperaturas mais altas podem causar desconforto, além do risco de queimaduras na pele.

​

Para se obter bons resultados com a terapia a aplicação deve durar de 20 a 30 minutos e a frequência será estabelecida de acordo com a avaliação do veterinário.

​

Dentre as formas de aplicação de calor superficial (que atinge profundidades de 1 a 10 mm) estão as compressas quentes, hidroterapia com água aquecida e o usos de lâmpadas de infravermelho.

​

Como desvantagens da técnica o fato de não ser útil em casos agudos, necessitar repetidas aplicações para se obter resultados, e suas principais contraindicações são infecções ou neoplasia onde exista hemorragia, alteração de sensibilidade de pele ou distúrbios circulatórios.

​

CRIOTERAPIA - TÉCNICA DE APLICAÇÃO DE FRIO

​

A crioterapia é uma das mais simples e antigas modalidades para tratamento de lesões dos tecidos moles como torções e contusões principalmente por causa do seu efeito analgésico. Além disso ela auxilia na redução do espasmo muscular e proporciona relaxamento muscular por bloqueio da condução nervosa.

​

Possivelmente a justificativa mais frequentemente citada para aplicação de gelo na fase aguda da lesão está relacionada ao modelo de injúria secundária. Este modelo se baseia na premissa que após um trauma inicial (lesão muscular, por exemplo) eventos patofisiológicos associados como inflamação aguda podem causar dano secundário as células ao redor do foco da lesão. A principal preocupação é que este processo pode envolver dano colateral a células sadias não envolvidas no trauma inicial. Este fenômeno é conhecido como lesão celular secundária, e pode ser causado tanto por mecanismos enzimáticos como isquêmicos.

​

Um dos mais importantes efeitos celulares associados com a crioterapia é o potencial de reduzir a taxa metabólica do tecido  e ao redor do foco da lesão. Esta redução na demanda metabólica pode permitir que a célula tolere melhor o ambiente de isquemia na fase imediata pós-lesão minimizando assim o potencial para dano celular secundário ou morte celular.

​

Quando ocorre uma lesão muscular ou articular, células como neutrófilos, monólitos, eosinófilos e macrófagos são ativados e dominam a resposta inflamatória nas fases iniciais do processo. Apesar destas células desempenharem um papel importante no reparo da lesão através de mecanismos de remoção de debris celulares necróticos e liberação de citocinas, elas também podem podem apresentar um efeito negativo no processo de cicatrização após a lesão. Uma vez ativadas, estas células resultam em uma série de reações que são inclusive fonte de espécies reativas de oxigênio (ROS), agentes importante nos mecanismos de defesa imune porém podem apresentar potencial de mecanismo deletério se ativados de forma inapropriada. Os estudos da crioterapia avaliam o comportamento destas células após a lesão em tecidos moles. Foi observado que há redução na circulação de neutrófilos após a lesão.

​

Alguns dos efeitos clínicos observados pela aplicação da modalidade são:

​

  • Redução de edema e metabolismo;

​

  • Atenuação dos sinais do processo inflamatório;

​

  • Redução da dor.

​

É importante saber que a amplitude da resposta à aplicação do frio pode variar em função da técnica de crioterapia utilizada, do tempo de exposição ao frio e do tamanho da área a ser tratada.

​

As principais indicações da crioterapia são:

​

  • Lesões que incluam dor e reação inflamatória exacerbada;

​

  • Pós-operatório de casos ortopédicos;

​

  • Programas preventivos de equinos atletas.

​

No que se refere aos cavalos atletas, sabe-se que o treinamento intenso resulta em pequenas lesões em diferentes tecidos, denominadas de microlesões fisiológicas.

​

Essas microlesões tendem a se recuperar por si só, porém, por ocorrerem recorrentemente e ter pouco espaço de tempo (entre um treino e outro) para seu reestabelecimento, podem vir a causar lesões maiores, como por exemplo, uma desmite de ligamento suspensório.

​

Nesses casos a crioterapia pode, quando utilizada de forma apropriada, com métodos eficientes e período adequado, colaborar com o processo de reparo dos tecidos, por reduzir os sinais inflamatórios locais, além de ser uma grande aliada na prevenção de lesões em cavalos atletas.

​

O tempo médio de aplicação é 30 minutos considerandose os 10 minutos iniciais para atingir a temperatura e 20 minutos de ação terapêutica. Com relação a temperatura a ser atingida, sabe-se que o efeito analgésico é alcançado a 14,4°C e a redução do metabolismo local e redução da circulação sanguínea acontecem próximos a 13,8°C.

​

Dentre as formas de aplicação da crioterapia encontram-se a criomassagem, imersão em botas de água e gelo, bolsas de gel, compressas geladas, crioterapia com compressão ativa, “spas” de crioterapia, câmaras de crioterapia de corpo inteiro, entre outros. Esta técnica não é indicada em casos de insuficiência circulatória periférica, na pele anestesiada, presença de tecido necrótico, presença de solução de continuidade nos tecidos superficiais (feridas), lesões de pele, suspeita de fratura e neoplasias.

​

CRIOTERAPIA DE CORPO INTEIRO (WHOLE-BODY CRYOSTIMULATION)

​

Prática utilizada em humanos como uma terapia complementar ou estratégia de recovery. O princípio da técnica é gerar estresse térmico em um local confinado a uma temperatura que varia de -160°C a -110°C, por um tempo limitado que geralmente é em torno de 3 minutos.

​

Nos dias de hoje não se tem um guia científico com um protocolo para o uso em equinos, sistemas comerciais experimentais para equinos utilizam os mesmos conceitos dos equipamentos humanos.

​

O equipamento utilizado para equinos submete o animal a estresse térmico, produzido por exposição a gás nitrogênio em uma câmara semifechada por um tempo limitado. Por questões de segurança, a cabeça do equino permanece fora da zona de resfriamento para evitar a inalação do gás nitrogênio.

​

Em estudo utilizando como protocolo o resfriamento a –140°C por 3 minutos com o objetivo de estabelecer recovery em equinos atletas, como ocorre em humanos, não obteve o resfriamento desejado. Os autores da pesquisa atribuem a variação nas características da pele que não permitiu que houvesse o resfriamento terapêutico suficiente e não gerasse o efeito recovery, sendo proposto alteração no tempo de exposição como estratégia para se obter os efeitos terapêuticos.

​

TERAPIA DE CONTRASTE

​

A terapia de contraste é caracterizada por aplicações repetidas, alternadas de frio e calor no recovery pós-exercício e para o tratamento de lesões agudas de tecidos moles com o objetivo de atingir aumento da circulação sanguínea através de vasodilatação e vasocontrição cíclica.

​

Esta característica de alternar vasoconstrição e vasodilatação periférica pode reduzir edema. Esta teoria é referida como bombeamento (pumping action) por alguns autores, porém outros trabalhos trazem que não foi possível atingir aumento de temperatura intramuscular capaz de induzir este efeito de bombeamento. Outro efeito fisiológico que pode ser atingindo é alteração de temperatura e fluxo sanguíneo, redução de espasmo muscular, melhorar amplitude de movimento articular.

​

Apesar da ampla gama de efeitos que foram demonstrados pela terapia de contraste (incluindo alteração de fluxo sanguíneo, redução de sinais da inflamação, vasodilatação e vasoconstrição, redução de edema, controle da dor e rigidez muscular) as bases fisiológicas da terapia de contraste ainda não são bem estabelecidas.

​

TÉCNICA DOPING FREE

​

Com as regras para o uso de medicações se tornando cada vez mais rigorosas pela FEI e associações, o uso de modalidades não restritas vem crescendo com ótimos resultados na medicina esportiva equina, tornando-se uma excelente opção de suporte aos cavalos durante as competições, sempre com o acompanhamento do médico veterinário responsável pelo atleta.

​

O uso da termoterapia, segundo as regras da FEI, incluída no REGULAMENTO VETERINÁRIO de 2021, CAPÍTULO VI, TERAPIAS DE SUPORTE, cita, no Artigo 1064, que a modalidade faz parte das terapias de suporte não restritas (uso de bolsas de aquecimento e resfriamento) porém, o resfriamento com gelo e água não é permitido se a temperatura estiver abaixo de 0°C e o uso de máquinas e outros equipamentos de crioterapia são permitidos apenas se existir a possibilidade de travar os dispositivos para que a temperatura não exceda abaixo dos 0°C.

​

Na nossa rotina de reabilitação dinâmica na sede da Therapy4Horses, durante o circuito de provas equestres que acompanhamos cavalos atletas, em todo território americano, e nas clínicas/hospitais veterinários do país, posso afirmar que a crioterapia é uma modalidade que vem ganhando espaço de forma expressiva.

​​

​

Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer

M.V. (CRMV/RS 6792)

Equine Therapist

FEI Permitted Treating Veterinarian-BRA

WALT Member (World Association for LASER Therapy)

AAEP Member (American Association of Equine Practitioners)

​

​

COLABORADORAS:

​

Laura Leandra Halinski - CRMV/RS 13337

Médica Veterinária (Therapy4Horses/BRA)

​

Laura Lorrane Ribeiro Vieira

Médica Veterinária - Rio Verde/GO

Residente (Therapy4Horses/USA)

​

Fernanda Silveira Nóbrega - CRMV/RS 9031

Médica Veterinária Doutora

​

​​

Artigo publicado na Revista +Equina

Ano 15 - Nº96

Julho/Agosto 2021

  • instagram-2_verde
  • facebook-app-symbol_verde
  • youtube_verde
logo_marcaregistrada_landingpage copy.png

© 2026 Therapy4Horses.

bottom of page