
Artigo
MOVIMENTO: O SEGREDO
DA REABILITAÇÃO DE SUCESSO PARA EQUINOS ATLETAS
Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer / Fotos: Bee Silva

Durante muito tempo a conduta para a abordagem de lesões ortopédicas de equinos baseou-se no tratamento clínico farmacológico associado ao repouso em cocheira e, mesmo quando programas de reabilitação eram incluídos, os mesmos também preconizavam o repouso absoluto.
Atualmente, sabe-se que o repouso absoluto, após a ocorrência de uma lesão, é bastante controverso, pois, nele, tanto tendões e ligamentos quanto cápsulas articulares e ossos, sofrem processos degenerativos durante o período de imobilização, podendo promover danos irreversíveis e ainda mais graves que a lesão inicial.
Estudos científicos demonstram que a reabilitação dinâmica, através de exercício controlado, estimula e orienta o processo de reparo, reduz a formação de aderências, mantém a mobilidade articular e prepara as estruturas para o retorno ao treinamento, com menores chances de recidivas.
O exercício otimizado tem sido aceito recentemente pela comunidade veterinária e os candidatos a esta modalidade são os pacientes equinos com histórico de lesões musculoesqueléticas, neurológicas ou em período de recuperação pós-operatória.
A reabilitação realizada de forma adequada permite minimizar os efeitos consequentes da restrição de movimento além de estimular a cicatrização de tecidos moles e cartilaginosos.
Na fisiatria veterinária poucos são os preceitos estabelecidos para a reabilitação pelo movimento em equinos.
Pensando nesta lacuna, foi adequado pela médica veterinária Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer Diano, em 2019, o modelo de Protocolo de Reabilitação Dinâmica para equinos D.E.L.T.A. (Diagnóstico, Exercício otimizado, Liberdade responsável, Técnicas terapêuticas, Analgesia controlada).
Hoje, sendo aplicado na rotina de tratamento de cavalos de alto desempenho, não somente na Therapy4Horses, centro de reabilitação de equinos sediado nos Estados Unidos, como também em diversos outros países com profissionais habilitados para uso da técnica.
O diagnóstico correto constitui uma parte importante do protocolo, pois a efetividade das intervenções terapêuticas é dependente da precisão diagnóstica.
A abordagem da fisioterapia em complemento ao tratamento clínico do cavalo tem como objetivo principal potencializar o processo de recuperação tanto na qualidade do processo de cicatrização quanto no tempo necessário para a completa cura.
Em se tratando de exercício otimizado, a carga e o tipo de atividade devem ser instituídos de forma progressiva, respeitando a fase de cicatrização da lesão e a resposta do paciente.
Para que este programa tenha melhor rendimento, o trabalho em conjunto do veterinário clínico, fisiatra e treinador é fundamental.
A liberdade responsável consiste em permitir que o paciente explore o ambiente fora da cocheira, porém de forma controlada, onde não há soltura completa do animal, o que poderia prejudicar o processo de recuperação caso houvesse movimentação exacerbada.
Além disso, a postura adquirida durante o pastejo promove um alongamento natural da musculatura do pescoço e região dorsal do cavalo.
A analgesia controlada é um dos fatores mais discutidos na medicina veterinária esportiva, pois diante do controle antidoping, mais rígido durante os eventos equestres, busca-se cada vez mais promover o conforto dos pacientes em competição, mas ainda respeitando a percepção do cavalo em relação ao seu limite fisiológico durante a execução dos exercícios.
Com isso, o protocolo sugerido não considera o uso indiscriminado de fármacos anestésicos locais ou de agentes neurolíticos como parte da terapêutica.
Assim, o protocolo D.E.L.T.A. contempla não só a aplicação das modalidades fisioterápicas, como equipamentos ou técnicas manuais e ainda os exercícios otimizados, mas também a integração de procedimentos clínicos que visam o bem-estar do paciente, como a abordagem da analgesia controlada, sem prejudicar a atividade esportiva.
E reforçando que a boa comunicação entre a equipe responsável pelo cavalo atleta, que inclui desde o veterinário clínico até o cavaleiro que executa o treinamento do paciente, permite a otimização dos resultados desejados.
Autora: M.V. Esp.
* Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer CRMV/RS 6792
Proprietária & CEO Therapy4Horses/Equine
Rehabilitation Center - USA
FEI Permitted Treating Veterinarian-BRA
AAEP Member (American Association of Equine Practitioners)
Colaboradores:
Jessica Andrea Neme - CRMV/SP 41989
Médica Veterinária Therapy4Horses/USA
Fernanda Silveira Nóbrega - CRMV/RS 9031
Médica Veterinária Doutora
Coordenadora do grupo de estudo da Therapy4Horses/BRA
Artigo publicado na Revista Quarto de Milha
Edição Nº248
Editora Jequitibá