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MICROLESÕES FISIOLÓGICAS EM EQUINOS ATLETAS

Você já ouviu falar sobre microlesões fisiológicas?
Sabemos que o organismo busca manter suas condições normais de funcionamento sistêmico através da regulação de sua homeostasia frente à diversos agentes estressores. No
entanto, ultrapassar o limite fisiológico de uma estrutura musculoesquelética poderá promover uma lesão tecidual.
Tensões geradas durante movimentos de alta intensidade ou realizados em condições não fisiológicas, podem resultar na formação de microlesões nas fibras colágenas no aparelho
musculoesquelético do equino.
O treinamento é considerado uma condição exógena de estresse, onde a aplicação de estímulos variados de acordo com a intensidade, duração e frequência, promovem o desequilíbrio dessa condição de homeostasia. Caso as condições sejam favoráveis para a sua posterior adaptação, o organismo estabelece uma reorganização de suas funções para se adaptar à um novo estado homeostático ideal.
Estímulos adequados, dentro dos limites seguros e tolerados pelo organismo, tendem a causar uma ruptura nos padrões teciduais e bioquímicos, de forma que ocorra a reparação e a restauração tecidual, durante o intervalo entre os esforços de treinamento. Com a adaptação do organismo ao exercício intenso, se um mesmo estímulo de estresse for imposto novamente após a ocorrência da adaptação, os mecanismos homeostáticos não serão rompidos na mesma extensão. Estas adaptações benéficas e de caráter fisiológico também são conhecidas como microlesões fisiológicas, onde consideramos sua ocorrência em tecidos musculares, tendíneos, ósseos e articulares.
Em relação ao tecido tendíneo, por exemplo, a magnitude das cargas sobre os tendões dos equinos e a resistência à ruptura continuam pouco definidas nas pesquisas. Para entender sobre a dinâmica da microlesão no tendão é importante saber se a estrutura está em sua fase elástica ou viscoelástica. A adaptação fisiológica não ultrapassa o limite elástico tendíneo, no entanto, muitos estudos sugeriram que os exercícios em galope causam microlesões na região central (core) do tendão flexor digital superficial (TFDS) de cavalos. Ainda não se estabeleceu bem esta correlação, mas criou-se a hipótese de que o acúmulo dessas microlesões enfraquece o tecido tendíneo, podendo resultar em uma ruptura parcial ou total.
Os tendões flexores e ligamentos previnem o colapso articular nas extremidades distais durante a execução dos movimentos. Os tendões, por possuírem propriedades elásticas, conferem resistência à carga imposta. Ao sofrerem extensão, estocam energia elástica, que é liberada quando o membro retira o apoio do solo. Aproximadamente 7% da energia estocada é liberada na forma de calor. Este aumento de temperatura pode ser uma das causas mais comuns da ocorrência de lesões do tipo core e destruição de componentes da matriz celular tendínea, por exemplo, o TFDS pode alcançar uma média de 45°C internamente, promovendo alterações degenerativas à nível celular. Sendo assim, além do impacto, a hipertermia gerada por este calor estocado durante a atividade é outro fator de estresse nos tendões e ligamentos.
Alguns estudos indicam que a tendinite é resultado de episódios múltiplos de distensão submáxima sofridos durante o desempenho atlético que induzem microlesões à estrutura
tendíneas, predispondo à falha.
A cartilagem articular tem um papel central na fisiologia da articulação devido à sua tripla função: transmissão de forças geradas pela movimentação do animal, absorção de choques e permitir o deslize das extremidades ósseas para realizar o movimento. Sabemos que suas alterações são as maiores causas de aposentadoria de cavalos de alto desempenho e, além disso, tornam-se um desafio aos médicos veterinários devido à limitada capacidade de cicatrização de suas estruturas e à grande ocorrência de processos degenerativos.
Durante o exercício físico, também há um aumento de temperatura da articulação, que promove a liberação da colagenase sinovial e consequentemente estimulação da síntese
de cálcio, o que aumenta a destruição da cartilagem articular.
Em um estudo realizado por McCorskery e Harris, sobre o efeito da colagenase sinovial, ao submetermos a cartilagem ao exercício físico, obteve-se os seguintes resultados:
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À temperatura de 36ºC, a degradação do colágeno foi em torno de 38%.
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À temperatura de 33ºC, a degradação do colágeno foi em torno de 12%.
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À temperatura de 30ºC, a degradação do colágeno foi em torno de 3%.
Como médicos veterinários fisiatras podemos lançar mão de modalidades que buscam prevenir ou amenizar os processos inflamatórios ocorridos, que excederam o limite fisiológico
das estruturas musculoesqueléticas. Podemos citar a utilização da crioterapia, por exemplo, imediatamente após qualquer atividade física, no intuito de diminuir a temperatura
articular e de tecidos moles, visando reduzir ou limitar a liberação da colagenase sinovial.
Com isso, por meio de estudos realizados e conhecimentos biomecânicos, concluímos que em nossa rotina com cavalos de alta performance faz-se necessária o conhecimento aprofundado da resposta fisiológica do aparato locomotor frente aos exercícios, para que o protocolo se adeque tanto na prevenção quanto no tratamento das lesões esportivas.
Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer
M.V. (CRMV/RS 6792)
Equine Therapist
FEI Permitted Treating Veterinarian-BRA
WALT Member (World Association for LASER Therapy)
AAEP Member (American Association of Equine Practitioners)
COLABORADORAS:
Laura Leandra Halinski
Médica Veterinária - CRMV/RS 13337 (Therapy4Horses/BRA)
Laura Lorrane Ribeiro Vieira
Médica Veterinária - Rio Verde/GO (Residente Therapy4Horses/USA)
Iolanda Gea Kassem
Médica Veterinária Especialista - CRMV/MG 13258 (Sonoequi)
Artigo publicado na Revista +Equina
Ano 14 - Nº90
Julho/Agosto 2020