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FERIDAS EM EQUINOS: A LIMPEZA IDEAL PARA A CICATRIZAÇÃO EFICIENTE
Por Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer

As feridas cutâneas são uma das condições mais frequentes na rotina clínica de equinos, representando desafios tanto para criadores quanto para médicos veterinários.
A correta abordagem de limpeza dessas lesões é o ponto de partida fundamental para garantir uma cicatrização eficaz, minimizando complicações, perdas econômicas e acelerando a cicatrização no retorno às pistas.
A IMPORTÂNCIA DO MANEJO DAS FERIDAS
Estudos indicam que cerca de 60% das feridas em equinos ocorrem nos membros, principalmente nas articulações do carpo e tarso, devido à exposição constante a fatores ambientais e traumas acidentais. Embora muitas dessas feridas não sejam fatais, sua má gestão pode resultar em prejuízos significativos, como queda de desempenho atlético, cicatrizes indesejáveis que reduzem o valor de mercado, infecções crônicas e até descarte do animal.
A abordagem inicial correta, com ênfase na limpeza adequada, é essencial para reduzir o risco de complicações, como infecções bacterianas e o desenvolvimento de tecido de granulação exuberante.
CLASSIFICAÇÃO DAS FERIDAS
Para um tratamento eficaz, é necessário compreender a classificação das feridas, que pode ser baseada em:
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Exposição ao ambiente:
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Feridas fechadas: Contusões e hematomas.
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Feridas abertas: Incisões, lacerações e perfurações.
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Grau de contaminação:
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Feridas limpas: Produzidas em ambiente cirúrgico, com risco de infecção entre 1-5%.
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Feridas contaminadas: Quando já houve contato com agentes infecciosos, apresentando risco de infecção de até 17%.
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Feridas infectadas: Com presença de pus, edema e carga bacteriana elevada.
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Tempo de evolução:
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Agudas: Causadas por traumas recentes, com alta capacidade de reparação.
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Crônicas: Feridas que não cicatrizam em até seis semanas, exigindo intervenção intensiva.
SOLUÇÕES DE LIMPEZA MAIS UTILIZADAS
Entre as soluções de limpeza mais recomendadas, destacam-se:
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Solução salina 0,9%: A mais segura e utilizada, pois não causa citotoxicidade.
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Ringer Lactato: Mantém o equilíbrio eletrolítico e é bem tolerado pelos tecidos, promovendo um ambiente ideal para o processo de cicatrização.
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Diacetato de clorexidina 0,05%: Possui ação antimicrobiana prolongada, eficaz contra bactérias gram-positivas e gram-negativas.
*OBSERVAÇÃO - CUIDADOS COM A CLOREXIDINA:
A clorexidina, embora amplamente utilizada devido à sua eficácia, pode ser citotóxica em concentrações inadequadas, retardando a cicatrização e danificando fibroblastos. Seu uso em concentrações superiores a 0,05% pode levar a irritação tecidual severa, necrose e até atraso na regeneração celular. Além disso, a aplicação próxima a estruturas ósseas e articulares deve ser evitada para prevenir complicações como sinovites e reações adversas.
DILUIÇÃO CORRETA DA SOLUÇÃO
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A clorexidina deve ser diluída em solução salina ou Ringer Lactato para garantir segurança e eficácia.
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A diluição precisa seguir rigorosamente as recomendações veterinárias, utilizando seringas graduadas para medidas precisas.
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A aplicação deve ser feita com técnica de irrigação controlada para evitar remoção excessiva de tecidos saudáveis.
TÉCNICAS DE LIMPEZA ADEQUADAS
A técnica de limpeza de baixa fricção é a mais recomendada para a higienização de feridas, utilizando pressão controlada para remoção de contaminantes sem causar trauma ao tecido. Deve-se evitar o uso de esponjas abrasivas ou gaze seca, que podem danificar a superfície da ferida e retardar o processo de cicatrização.
PASSO A PASSO DA LIMPEZA DE FERIDAS EM EQUINOS
1. Preparação do ambiente: Assegurar que o local de manejo esteja limpo e com acesso a materiais estéreis.
2. Tricotomia da área afetada: A remoção dos pelos ao redor da ferida previne contaminação adicional.
3. Proteção da ferida: Utilizar gaze embebida em solução estéril para proteger a área durante a tricotomia.
4. Lavagem com solução estéril: Aplicação sob pressão moderada para garantir a remoção
de detritos sem danificar o tecido.
5. Secagem suave: Com compressas estéreis, sem fricção excessiva.
6. Aplicação de curativo: Escolha de curativos adequados para promover a cicatrização em
ambiente úmido controlado.
COMPLICAÇÕES COMUNS NO MANEJO DE FERIDAS
A falta de um protocolo correto de limpeza e tratamento pode levar a diversas complicações, tais como:
• Tecido de Granulação Exuberante: Ocorre, entre outros fatores, devido à limpeza com produtos não recomendados ou em concentrações elevadas, uma fase inflamatória prolongada e alguns outros pontos de manejos incorretos.
• Sequestro Ósseo: Fragmentos ósseos desvitalizados que atuam como corpos estranhos e requerem intervenção cirúrgica.
• Biofilmes: Comunidades bacterianas protegidas por matriz polimérica, dificultando o tratamento convencional com antimicrobianos.
CONCLUSÃO
A limpeza e o manejo adequado das feridas em equinos são essenciais para garantir uma recuperação eficiente, minimizando custos e preservando a saúde e o desempenho dos animais. Criadores e veterinários devem estar atentos às melhores práticas baseadas em evidências para proporcionar o melhor tratamento possível.
A implementação de protocolos baseados em soluções adequadas, técnicas de limpeza de baixa fricção e monitoramento constante é a chave para o sucesso no tratamento das feridas, promovendo a longevidade e o bem-estar dos equinos.
Ao implementar protocolos baseados em boas práticas, criadores e veterinários podem garantir não apenas a saúde dos cavalos, mas também o sucesso esportivo e econômico.
AUTORA:
M.V Maria Inês Gay da Fonseca Allgayer
Médica Veterinária CRMV/RS/9267
Equine Therapist
FEI Permitted Treating Veterinarian
Proprietária/CEO Therapy4Horses/Equine Rehabilitation Center Oklahoma-USA
AAEP Member (American Association of Equine Practitioners)
Artigo publicado na Revista Rédeas
Edição Ano X Nº25
Editora Jequitibá